O Cálice e o Labirinto: 02 - A Casa Vazia

 


O Cálice e o Labirinto

Carta 02
A Casa Vazia


Estou dentro de uma casa vazia. Tudo o que se escuta é o barulho do vento entrando pela janela. A casa está fria, estou deitado com os olhos para o teto, pensando, buscando, esperando. Até quando beberei o mesmo cálice sozinho?
Onde está você agora? Correndo em círculos? Estique sua mão, não posso deixar que siga sozinha nessa sua busca por algo, mesmo ainda não sabendo o que seria. Por que não descobrir agora?

Não posso voltar o relógio para trás, mas talvez eu tenha chegado em boa hora. Quem vai dizer que não?

Será que a temporada das flores está chegando? Não seria uma má ideia, cansei de sentir apenas os espinhos. Tudo está tão vazio por aqui, não há nada o que fazer, nada que valha a pena buscar. Tenho apenas o vento frio da janela, não tenho o que queimar para me aquecer, não restou mais nada. Você poderia trazer alguma coisa?

É apenas mais uma cena do filme que eu mesmo criei; um roteiro que esqueci trancado em algum lugar e perdi as características do personagem principal: terei que me reinventar para que as cenas continuem. Foi tudo um castelo de cartas. Um castelo que não mantinha sólida sua base e acabou desmoronando-se e perdendo as cartas com o vento. Agora não sobrou mais nada além de um recomeço.

Gosta de andar em círculos? Posso segurar você pela mão para girarmos juntos à luz de uma bela manhã e curtirmos a paisagem. Pode escolher o local, o idioma e o hemisfério. Meu inglês está meio enferrujado, mas consigo acompanhá-la em alguma aventura, nem que precise gesticular para pedir um prato simples em um restaurante elegante (seria, no mínimo, engraçado) ou utilizar um dicionário on-line. Não importa. Vale a vergonha, vale o risco e vale o preço. O importante é você estar comigo.

Já fez suas malas? Estou pronto para buscá-la em alguma rodoviária ou aeroporto para seguirmos juntos. Está muito pesada sua bagagem? Carrego para você, sem problemas. Depois de umas sete ou oito fotos, guardamos os telefones para não sermos incomodados e conversaremos bastante. Afinal, uma década de atraso contém muito para dividir. Comece pelos seus sonhos, quero conhecer todos! Quero muito mais, mas não agora; agora quero apenas ouvir você. Já estou com a chave do carro no bolso, não se atrase. O vinho já está separado, o cálice pronto para receber esta safra única, doce e tinta. Sim, um cálice apenas, pois dividiremos: beberemos juntos.

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