O Cálice e o Labirinto: 04 - O Menino que contava estrelas

 

O Cálice e o Labirinto

Carta 04
O Menino que Contava Estrelas

O que eu tenho me tornado? Ainda sou o mesmo? Tenho buscado a melhor versão de mim? Ontem assisti novamente a um filme que havia gostado. Ontem assisti a este filme e vi, por meio da protagonista, você: segurando aquele cálice amargo sozinha, desprotegida, correndo atrás de seus sonhos, mas, por dentro, sentindo-se como uma lata vazia. Eu me vi no personagem principal, aquele que tinha tudo para se tornar uma ótima pessoa, alguém promissor, que jogou sua vida no lixo por escolhas erradas. Estávamos nós dois naquele filme, onde haviam cálices, vinhos, viagens, França e conflitos.

O enredo era o mesmo, os personagens um pouco diferentes. Sei que ainda sou aquele menino que se sentava em sua própria varanda com seu violão e admirava as estrelas. Aquele mesmo que escrevia suas próprias músicas e acreditava no potencial delas. Aquele sonhador, aquele que esperava uma chance para fazer a vida ser a melhor que pudesse; um contador de estrelas. Mas este mesmo menino encontra-se hoje escondido em algum lugar, dentro de alguma parte profunda de mim mesmo onde não ouso mais tocar ou encontrar. Pelo menos não ousava, pelo menos não sozinho. Será que estou certo em deixá-lo preso? Acredito que não, estou longe de ser o melhor de mim, tão longe de ser eu mesmo.

Dentro de amarguras e saudades, dentro de dores, escondida atrás de sonhos, pensamentos, focos (totalmente admiráveis), está você. Seu tempo, suas palavras completando as minhas, seu medo, seu jeito de menina e de mulher de ver tudo ao redor; nós dois somos a mesma parte de um todo, mas em locais distintos: apenas não sabemos disso ainda. Mas podemos descobrir: com aquele cálice que nunca se esvazia, com aquelas uvas selecionadas, com as surpresas cheias dentro de latas vazias, com mais de uma década de atraso para descobrirmos realmente quem éramos, somos e aonde queremos chegar, aonde podemos chegar.

Você, mesmo de longe, sabe quem eu sou. Conseguiu me conhecer em cada verso que escrevi, em cada linha de prosa deixada com o melhor de mim. Aquele menino estava escondido e você (sim, você) ajudou a resgatá-lo. Ele estava pedindo ajuda preso naqueles escombros daquela antiga demolição. Como você me encontrou? Estávamos na mesma demolição, apenas não sabíamos, apenas não havíamos nos encontrado antes.

Nossas bagagens estão maiores, nossas viagens já foram mais longas, nossos destinos ainda não foram traçados: mas temos caneta e papel em nossas mãos, podemos escrever os destinos juntos. E, sim, pode ser o mesmo. Assim como aquele cálice, aquele que era amargo, mas que pode tornar-se o mais doce de todos. Afinal, o vinho ficou guardado há mais de dez anos nos melhores tonéis; o destino estava certo e apenas não sabíamos. Quem estava errado era eu. Você sussurrou em meus ouvidos as palavras certas anos atrás, eu que não quis ouvir.

Medo? Claro que sim! Não é fácil. Mas nada que vale a pena é. Ainda há espaço no papel, ainda há tinta para escrevermos, ainda há histórias para criarmos e contarmos, ainda há uma chance para sorrir. Talvez o maior de todos os sorrisos, aquele que deixei guardado para este momento. E seus medos? Estarei lá para protegê-la de todos. Posso ajudá-la a fugir daqueles monstros que a assombram, posso ajudá-la a segurar aquele cálice pesado e amargo, substituindo-o por um vinho leve e doce. Deixe-me ser a primavera das suas flores, deixe-me ser a aquarela das suas cores, deixe-me ser a luz quando tudo escurecia: deixe-me ser real.

Você está me ajudando a encontrar o melhor de mim; posso ajudá-la a encontrar o melhor de você.
O destino estava certo, ainda somos os mesmos. Aqueles envergonhados correndo, fugindo, nos escondendo. Mas o destino sempre esteve certo e nós errados, ou melhor, eu errado. Ouvi dizer que se encontra alegria nos lugares mais incomuns, acredito que encontra-se, também, nos mais inesperados e, também por isso, mais especiais. Chegamos ao ápice, cheguei ao melhor de mim e descobri isto nessa noite, nos vendo naquele roteiro que eu não havia escrito mas estava vivendo. Porém agora estamos com o roteiro em nossas mãos, basta que façamos o melhor de nós e que completemos novamente as palavras um do outro, para que o filme seja o melhor de todos, para que a vida seja a melhor de todas. Deus abriu as portas, basta atravessarmos. Está com medo? Segure na minha mão, não precisa olhar para trás. Afinal, você me disse uma vez que a vida é para frente, certo?

Prepare a pipoca para assistirmos a este filme juntos. Gosto da minha com manteiga, mas deixo que você escolha o melhor sabor. O filme já começou, nós que não havíamos percebido. Podemos beber na mesma lata o refrigerante, podemos guardá-la de recordação depois. O cálice já está em cima da mesa, conversaremos em seguida e compartilharemos deste momento único. Estamos com o mesmo cálice, somos a mesma parte de um todo escrita pelo destino, o nosso destino.

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